Apresentações clínicas não usuais de pacientes portadores de síndrome de Patau e Edwards: um desafio diagnóstico?
Fichamento 1
Tarefa 3 Gincana Genética
Apresentações clínicas não usuais de pacientes portadores de síndrome de Patau e Edwards: um desafio diagnóstico?
Rev. paul. pediatr. vol.26 no.3 São Paulo Sept. 2008 doi: 10.1590/S0103-05822008000300015
Paulo Ricardo G. ZenI; Rafael Fabiano M. RosaII; Rosana Cardoso M. RosaIII; Lisiane Dale MulleIV; Carla GraziadioV; Giorgio Adriano PaskulinVI
IGeneticista clínico da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e do Complexo Hospitalar Santa Casa de Porto Alegre (CHSCPA), mestre pelo Programa de Pós-graduação em Genética e Biologia Molecular da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e professor-assistente da disciplina de Genética Clínica da UFCSPA. Porto Alegre, RS, Brasil
IIGeneticista clínico da UFCSPA e do CHSCPA e mestre pelo Programa de Pós-graduação em Patologia da UFCSPA. Porto Alegre, RS, Brasil
IIIMédica formada pela UFCSPA. Porto Alegre, RS, Brasil
IVMédica intensivista pediátrica do Hospital da Criança Santo Antônio do CHSCPA. Porto Alegre, RS, Brasil
VGeneticista clínica da UFCSPA e do CHSCPA, mestre pelo Programa de Pós-graduação em Genética e Biologia Molecular da UFRGS e professora assistente da disciplina de Genética Clínica da UFCSPA. Porto Alegre, RS, Brasil
VIGeneticista clínico da UFCSPA e do CHSCPA, doutor pelo Programa de Pós-graduação em Genética e Biologia Molecular da UFRGS e professor adjunto da disciplina de Genética Clínica da UFCSPA. Porto Alegre, RS, Brasil
As síndromes de Patau e de Edwards, ambas descritas em 1960, são doenças genéticas bastante conhecidas e causadas, respectivamente, pela trissomia do cromossomo 13 e 18. Essas doenças apresentam prevalência na população de 1:10.000-20.000 e 1:3.600-8.500 nascidos vivos, respectivamente, com predomínio, nas duas síndromes, de meninas. A síndrome de Edwards representa a segunda trissomia mais freqüente de cromossomos autossômicos, ultrapassada apenas pela síndrome de Down.
Ambas caracterizam-se por um quadro clínico amplo, com acometimento de múltiplos órgãos e sistemas. A maioria dos fetos portadores de trissomia do cromossomo 13 e 18 não chega ao termo. Dos nascidos vivos, a quase totalidade (respectivamente, 86 e 90-100%) evolui para o óbito no primeiro ano de vida. Em ambas, o diagnóstico é usualmente confirmado pelo estudo dos cromossomos, com o exame de cariótipo a partir do sangue periférico.
A síndrome de Patau, em geral, resulta da presença de cromossomo 13 adicional (trissomia livre), levando a uma constituição citogenética com 47 cromossomos. Esta se origina do fenômeno de não-disjunção, na maioria das vezes durante a segunda divisão meiótica da oogênese materna e se associa à idade da mãe. Aproximadamente 20% dos casos são decorrentes de translocações, na sua maioria Robertsonianas, resultantes da fusão de dois cromossomos acrocêntricos, em especial entre os cromossomos 13 e 14, como ocorreu no presente caso. Esta representa o principal tipo de translocação Robertsoniana (cerca de 33% dos casos), com uma prevalência estimada de portadores na população de 1:1.300 indivíduos. Nestes casos, o estudo dos cromossomos dos pais é sempre indicado no intuito de excluir a possibilidade de que um deles possa ser portador equilibrado desta alteração e apresentar, assim, um risco aumentado para sua prole. Somente 5% dos casos de síndrome de Patau ocorrem por mosaicismo, ou seja, pela presença de mais de uma linhagem de células no mesmo organismo, como no caso da paciente .
A trissomia do cromossomo 13, ao contrário da trissomia do cromossomo 18, apresenta mais freqüentemente malformações evidentes ao exame físico, que constituem padrão característico de múltiplas anomalias congênitas. Em geral, a combinação de fendas orofaciais (como lábio leporino), microftalmia e/ou anoftalmia e polidactilia pós-axial de membros permite seu reconhecimento. Essa tríade característica é observada em 60 a 70% dos casos.
A expectativa média de vida dos pacientes com trissomia do cromossomo 13 é de 130 dias, sendo a sobrevida além dos três anos de idade excepcional. As crianças que ultrapassam esta faixa etária apresentam, de forma geral, importante atraso no desenvolvimento, mas com capacidade de adquirirem algumas habilidades, como ocorreu com a paciente.
A síndrome de Edwards, em geral, resulta de uma trissomia livre, ou seja, da presença de três cópias inteiras do cromossomo 18. Tal trissomia também possui uma associação com a idade da mãe, sendo a maioria dos casos decorrente de um fenômeno de não-disjunção durante a segunda divisão meiótica da oogênese materna. Translocações e mosaicismo são menos freqüentes, sendo observados em somente 10% dos casos.
Nos casos de trissomia livre do cromossomo 18 não existe indicação de realizar a avaliação citogenética dos pais, pois esta anormalidade, como já exposto, é decorrente de um fenômeno de não-disjunção durante a gametogênese. Alguns autores sugerem um discreto aumento do risco em futuras gestações, mesmo para outras trissomias potencialmente viáveis, sendo que certas mulheres apresentariam uma predisposição a um número maior de erros meióticos em geral. Contudo, a recorrência da mesma trissomia em outro filho tem sido raramente relatada na literatura, sendo seu risco considerado virtualmente desconhecido. Entretanto, deve-se lembrar do aumento do risco de concepção de fetos trissômicos com o avanço da idade materna.
A síndrome de Patau e de Edwards, podem apresentar um padrão não usual de anormalidades, tornando seu diagnóstico um desafio. Nesses casos, o cariótipo é essencial para a sua definição. O diagnóstico preciso destas síndromes é fundamental para avaliação, conduta clínica e aconselhamento genético adequados.
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